Três tipos de aposta
  1. Core: melhorar o que existe
  2. Adjacente: expandir para perto
  3. Novo: criar o que ainda não existe

A escolha que quase ninguém faz explicitamente

Toda empresa tem uma ambição de inovação, mesmo quando nunca falou sobre ela. Ela aparece no portfólio: quais projetos recebem gente, quais recebem orçamento e quais ficam esperando a próxima reunião.

Quando essa escolha não é feita de forma explícita, a operação faz por ela. Projetos de melhoria, com retorno mais previsível e defensores próximos da rotina, ocupam quase todo o espaço. Apostas de crescimento, que dependem de aprendizado e de tolerância a erro, perdem a disputa por recursos quase sempre.

Não há nada de errado em inovar no core. O problema é quando isso é resultado de omissão, e não de decisão.

Três tipos de aposta

Um modelo simples, que funciona bem nas conversas com a liderança, separa as iniciativas em três grupos:

  • Core: melhorar produtos, processos e serviços atuais para os clientes atuais. Risco menor, retorno mais previsível, horizonte curto.
  • Adjacente: levar o que a empresa já sabe fazer para novos clientes, canais ou aplicações próximas. Exige aprender algo novo, mas se apoia em ativos que já existem.
  • Novo: criar ofertas ou modelos de negócio para mercados que a empresa ainda não atende. Incerteza alta, horizonte longo e potencial de mudar a posição da empresa.

A classificação parece óbvia. O que costuma surpreender é ver, pela primeira vez, a distribuição real do portfólio. Em muitas empresas, quase tudo está no core, inclusive iniciativas que a liderança chama de transformacionais.

O 70/20/10 é referência, não regra

A referência mais conhecida para esse equilíbrio vem de um estudo de Bansi Nagji e Geoff Tuff, publicado na Harvard Business Review em 2012. Eles observaram que empresas com desempenho superior tendiam a destinar cerca de 70% dos recursos de inovação ao core, 20% ao adjacente e 10% ao novo, e que o retorno se distribuía de forma quase inversa: a maior parte vinha das apostas transformacionais.

O número é útil para provocar a discussão. Não serve como meta a ser copiada. Os próprios autores mostram que a proporção varia conforme o setor e o momento competitivo da empresa.

Uma indústria madura, pressionada por margem, pode precisar de mais core por um período. Uma empresa cujo mercado principal está encolhendo talvez precise do contrário. A pergunta certa não é qual é o número ideal, e sim qual equilíbrio sustenta a estratégia nos próximos anos.

Como definir a ambição na prática

A discussão com a liderança pode ser conduzida a partir de cinco perguntas:

PerguntaO que ela revela
De onde virá o crescimento nos próximos três a cinco anos?Quanto o plano depende de mercados e ofertas que ainda não existem.
O que acontece se o negócio principal ficar como está?A urgência real de movimentos adjacentes ou novos.
Quanto a empresa aceita perder em apostas que podem não dar certo?O limite prático para o horizonte novo.
Que capacidade existe para executar?Se a ambição cabe nas pessoas e no tempo disponíveis.
Como está distribuído o portfólio hoje?A distância entre a ambição declarada e a real.

Cinco perguntas para orientar a definição da ambição de inovação.

O resultado dessa conversa deve caber em uma frase objetiva. Por exemplo: nos próximos três anos, vamos destinar cerca de um quarto do esforço de inovação a ofertas adjacentes, com foco em serviços para a base atual de clientes. Uma frase assim orienta mais do que qualquer apresentação de visão.

Cada tipo de aposta pede uma gestão diferente

Definir a proporção é metade do trabalho. A outra metade é não gerir os três grupos da mesma forma.

DimensãoCoreAdjacenteNovo
Critério de decisãoRetorno e prazoAderência e potencial de mercadoAprendizado e validação de hipóteses
IndicadoresCusto, produtividade, qualidadeAdoção, receita inicial, margemHipóteses validadas, sinais de demanda
OrçamentoAnual, no plano da áreaPor etapa, com marcosEm parcelas pequenas, liberadas por evidência
Tolerância a erroBaixaModeradaAlta, com limite de perda definido

Um exemplo de como diferenciar a gestão por tipo de aposta.

O erro mais comum é cobrar de uma aposta nova o mesmo retorno de curto prazo de uma melhoria de processo. Ela perde nessa comparação todas as vezes, e a empresa conclui que não sabe inovar, quando na verdade não soube medir.

Por onde começar

  • Classificar o portfólio atual nos três grupos, com honestidade.
  • Comparar a distribuição real com o que a estratégia exige.
  • Definir a ambição em uma frase e em uma proporção de referência.
  • Ajustar critérios, indicadores e liberação de recursos para cada grupo.
  • Revisar a distribuição a cada ciclo de planejamento.

Ambição de inovação não é discurso de visão. É uma decisão de alocação. E, como toda decisão de alocação, só existe de verdade quando aparece no orçamento.

Sobre o autor

Rodrigo Miranda reúne mais de 18 anos em inovação, experiência como CEO de consultoria e liderança de operações no Brasil e na Europa. É professor convidado da UNICAMP há dez anos.

Sobre este artigo

Texto de Rodrigo Miranda para os Insights da MIRANDA.

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